terça-feira, 7 de maio de 2013

Visita do profundo.

      Acordei durante  madrugada, não sei qual hora, muito assustado e perdido. Podia me levantar e ir ao banheiro ou beber água, podia simplesmente tentar dormir novamente, podia fazer alguma coisa normal... caso a situação fosse normal. Estava tão assustado quanto alguém que teria a pouco acordado de um terrível pesadelo. Mas... que pesadelo? Eu não tive pesadelo algum. Acordei com a pior sensação que tive em minha vida sem aparentes motivos. “Estou enlouquecendo”, foi o primeiro pensamento que me surgiu, mesmo que confuso.
“Eu não posso voltar para o pesadelo! Se eu dormir, certamente voltarei!”, pensei enquanto sentia uma ansiedade nunca antes sentida. Ora, voltar para qual pesadelo? Era como se eu tivesse, de fato, tido um pesadelo, porém assim que havia acordado eu o esqueci completamente. Pensei nessa possibilidade, embora pareça absurda. Sentia ali uma ansiedade demasiada profunda, um caos que me dominava quase por completo.
“Meus ossos, eles irão se desconectar se eu continuar acordado...”, esse foi o pensamento que marcou o clímax do meu terror. Eu sentia isso, sentia perfeitamente que as conexões de meus ossos explodiriam cada uma e de uma só vez. Agora percebo o quanto essa ideia era fantasiosa e doentia, mas naquele momento eu a sustentava como uma verdade, como uma realidade que não permitia escapatória.
 A escuridão me rodeava, entrava em meu corpo por todos os lados e eu parecia também fazer parte dela, perderia ali minha existência se me permitisse ser dominado pelos meus demônios. “Devo voltar a dormir”, dizia isso para mim mesmo com uma sensação nada auxiliadora para se sentar cair no sono novamente. Fico surpreso por haver dentro de nós a capacidade de produção de um terrível inferno. Como alguém - ou para acentuar mais o meu espanto - como eu poderia ter chegado a tal ponto? Que lado obscuro é este que existe em minha alma? Tinha perdido a vida, tinha já sido condenado ao suplicio? Mas... ora... era um sofrimento que meu próprio cérebro construiu! Não estava sendo dilacerado por um monstro real nem alguma espada estava sendo cravada em meu peito! Um monstro que só eu enxergava me causava mais dores do que qualquer outra!
 Ainda assim consegui dormir, a cena não tardou para acabar; rápida como um relâmpago, mas com a intensidade de mil raios e mil trovoes. Talvez só a intensidade a fez parecer longa já que cada segundo era de dor insuportável. Acordei aliviado durante a manhã; percebi que ainda estava vivo e que os meus ossos estavam em seus devidos lugares.

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