sábado, 21 de setembro de 2013

Devaneios.

Lentamente nos sentimos mais perto do que estamos esperando; sabemos que certamente algo acontecerá. A cada página lida sentimos um caos que, num dado momento, explodirá em um clímax intenso. A atmosfera aos poucos passa a se fechar em volta de nós, até então nos dominar por completo. Pobre em descrições, o estilo obscuro e perturbador do autor nos força a sermos analistas e a interpretarmos o que lemos, eu acredito, para nos inserir mais efetivamente em sua trama.

Pobre, porém muito orgulhoso e inteligente, Ródion Romanovitch Raskólnikov, um jovem  ex-estudante de direito dono de uma mente em confusão e doentia, planeja um assassinato contra uma velha usurária ao se encontrar numa situação desprezível: ainda morando em um cubículo sujo, devia dinheiro a certa locatária. Mas esta não era a principal razão para o assassínio, ele se via no direito de matá-la. Essa atitude lhe causa um intenso conflito em sua mente que o atinge da primeira até a ultima página.



Poderia escrever uma resenha, o livro é de uma complexidade interessante, mas por ora somente falarei dele abordando-lhe só uma superfície, portanto o que está lendo será curto. Depois postarei uma resenha, uma matéria que mergulhe mais profundamente em Dostoiévski, meu escritor favorito e atualmente minha principal influencia.

Raskólnikov possuía um comportamento melancólico e mórbido. Certas vezes sofria delírios, outras vezes saia de casa para caminhar pela cidade como um ébrio... Não bebia muito, mas havia momentos em que entrava em tavernas se permitindo estar entre pessoas. Não socializava muito – passara um mês inteiro em isolamento – mas algumas vezes não suportava ficar em sua casa, sobretudo pelo fato daquela ideia tanto o perturbar quando ele se encontrava lá. Achava que sair um pouco lhe faria esquecer um pouco as coisas que o inquietava e, quando se via em meio àquele povo humilhado, se identificava com eles e se sentia melhor. Sentia que, quando ficava sozinho, uma sombra perigosa se aproximava. Saia porque também queria esquecer a locatária e se queixava de que sua “casa” intensificava sua melancolia.

De quase 600 páginas, ao menos a tradução em português que li, Crime e Castigo é um livro que o caracterizo como genial e não é à toa que seja considerado uma das maiores obras da literatura – para alguns a maior – e que, por exemplo, influenciou todo o século XX, como Freud e Kafka. Fora publicado em 1866. É um romance realista e de alto teor psicológico, principais características de Dostoiévski em seus escritos, e claro, não é a única obra genial do autor. Em sua vida, começando por Pobre Gente em 1846 quando tinha 25 anos, foi escrevendo as maiores obras da literatura.

Levantou-se tarde no dia seguinte, após um sono agitado que não lhe reparara as forças. Despertando, sentiu que estava de mau humor e lançou em volta de si um olhar  de tédio, irritado. Esse cubículo de seis passos de comprimento tinha o aspecto mais miserável que se pode imaginar, com os estofos amarelados, deteriorados e imundos de poeira. O teto era tão baixo, que um homem de estatura alta não estaria à vontade naquela toca, com o permanente receio de bater nele com a cabeça. A mobília estava em harmonia com o recinto: três velhas cadeiras com falta de pés, a um canto uma mesa de pinho, na qual se amontoavam livros e cadernos cobertos de densa camada de pó, evidente prova de que havia muito deque não tocavam neles; finalmente, um grande e desmantelado divã, cujo estofo se desfazia.
Este móvel, que ocupava quase metade do quarto, era a cama de Raskólnikov, que nele dormia quase sempre vestido e sem lençóis, cobrindo-se com a sua velha capa de estudante e encostando a sua cabeça numa pequena almofada chata sob a qual metia toda a sua roupa, limpa e suja. Em frente ao sofá havia uma pequena mesa.
A misantropia de Raskólnikov adaptava-se magnificamente a toda aquela porcaria. Tomara tal aversão a qualquer ser humano, que à vista da própria criada que arranjava o quarto se exasperava. Isso é frequente em certos monomaníacos, preocupados com uma ideia fixa.
Havia quinze dias que a hospedeira suspendera o fornecimento de comida, mas Raskólnikov não pensara ainda em ir entender-se com ela.
Quanto a Nastácia, cozinheira e única criada da casa, não se aborrecia ao ver o inquilino nessas disposições, por que isso importava em uma diminuição do seu trabalho: deixara completamente de arrumar e limpar o quarto de Raskólnikov, vindo apenas uma vez por semana dar uma vassourada. Neste momento entrou para despertá-lo.
– Levanta-te! Como podes dormir até estas horas? Já são nove. Trago-te chá, queres uma xícara? Sempre estás com uma cara!...
Raskólnikov abriu os olhos, espreguiçou-se e reconheceu Nastácia.
– É a patroa que manda o chá?, perguntou enquanto se sentava.
A criada colocou diante dele o bule onde havia ainda um resto de chá, e pôs ao lado dois torrões de açúcar.
– Toma, Nastácia, disse ele, procurando no bolso e tirando uma moeda (mais uma vez se deitara vestido), peço-te que me vás comprar uma pãozinho e traze-me do salsicheiro um pedaço de chouriço, do mais barato.
– Num minuto estou de volta com o pão; mas em vez de chouriço, não queres antes um chtchi*? É de ontem e está uma beleza. Já ontem à noite te guardei um pedaço mas tu entraste tão tarde! Está uma delicia.
Foi buscar o chtchi. Raskólnikov pôs-se a comer e ela sentou-se no sofá ao seu lado, tagarelando, como camponesa que era.
– Praskóvia Pávlovna vai queixar-se de ti à polícia.
A fisionomia do rapaz alterou-se.
– À polícia? Por quê?
– Porque não lhe pagas e não queres sair. Ora aí tens o porquê.
– Essa só pelo diabo! Não me faltava mais nada!, rosnou por entre dentres, muito fora de propósito vem isso agora para mim... E tola, acrescentou em voz alta. Vou logo falar-lhe.
– Tola? É tão tola como eu. Mas tu, que és esperto, para que passas o dia deitado, como um vagabundo? Por que é que ninguém vê o teu dinheiro? Dantes parece que dava lições, por que é que não fazes nada, agora?
– Sempre faço alguma coisa... respondeu Raskólnikov bruscamente e contrariado.
– Que fazes tu?
– Trabalho.
– Mas que trabalho?
– Penso!, respondeu ele asperamente, depois de breve silêncio.

*Típica sopa russa de repolho.
Trecho de Crime e Castigo, páginas 34-36, tradução de Luiz Cláudio de Castro, editora Ediouro.