Fujam! Fujam dos ladrões de sonhos! Ora, eles estão por toda
parte!
Sentado em um banco do parque, Danf observava os pássaros.
No centro do parque havia uma linda fonte de água. A água brilhava com os raios
de sol daquela manhã e os pássaros lá estavam. Alguns parados, outros voando de
um lado para o outro como se estivessem brincando. Cantavam e cantavam tornando
aquela manhã cada vez mais tranqüilizante e agradável enquanto Danf pensava em
algo. Ele estava pensando em seguir um sonho. Ele queria ser um artista. Um
famoso artista.
Não demorou muito para o sujeito aparecer. O ladrão de
sonhos vestido com o seu manto desbotado, olhos mortos e pele branca como a
neve surgira diante do menino. Aparentava um fantasma. Não, ele não aparentava,
na verdade ele era um e poucas pessoas possuíam o dom de vê-lo. Digo, essas
pessoas são os verdadeiros sonhadores, os mesmos que nunca desistem e nunca se
desanimam ao falhar. Os sonhadores o qual eu contei há pouco. E se você é um,
tenha cuidado com o ladrão pálido. O desesperado ladrão de sonhos.
- Criança, o que tu pensas? – Disse o ladrão ao chegar.
- Quero ser um artista – o menino respondeu suavemente.
- Então tu sonhas?
- Eu sonho em ser um reconhecido artista – Danf respondeu
novamente. – Quero pintar lindos quadros, quero brincar com as cores.
O ladrão suspirou, deu de ombros, e mostrou uma expressão
desapontada e ao mesmo tempo feliz. Estava desapontado por ainda existir
sonhadores e feliz porque encontrara logo um. O seu dever era devorar os sonhos
das pessoas antes destas os realizarem. Ora, hoje talvez fosse o seu dia de
sorte. Achava que facilmente engoliria o sonho do menino e já pensava em sua
próxima refeição. “Espero que na próxima vez seja alguém que sonhe em ser
escritor. Eles têm um gosto muito bom...” Pensava o ladrão faminto como sempre.
Eu quem escrevo essa história sonho em um dia ser reconhecido como um grande
escritor... Eu espero que o ladrão de sonhos realmente não exista, senão terei
problemas.
O ladrão encarou o menino por alguns segundos o esperando
dizer mais alguma coisa, e nada o menino falou. Ele sentou ao lado do menino e
após esperar mais alguns segundos, quebrou o silêncio, dizendo:
- Irei devorar o teu sonho. Irei devorá-lo e você não irá
mais realizá-lo. Eu sinto muito.
O menino o ignorou continuando ainda a prestar atenção nos
pássaros e mergulhado nos pensamentos sobre ser artista. O ladrão de sonhos não
se aborreceu e falou em murmúrios:
- É muito triste, muito mesmo. Você jamais será artista. Oh,
sou terrível! Eu não sinto remorso ao fazer isso. Eu não sinto muito, eu menti.
O ladrão queria que o menino o temesse, porém não conseguia
assustá-lo. O ladrão ainda não se aborreceu, suspirou e murmurou outra vez:
- Eu sou um monstro, eu sou terrível. Irei devorar o teu
sonho porque eu sou muito malvado – e a sua tentativa séria de assustar o
menino mais parecia com uma ironia.
Danf o olhou pela primeira vez. A sua expressão era feliz. O
brilho dos seus olhos atingia a sensibilidade de qualquer pessoa e o seu olhar
tinha vida, pureza e a inocência de um anjo. O menino sonhador olhava para o
ladrão sem temê-lo e ainda nada falou. O ladrão chateou-se, ficou aborrecido e
não queria mais conversar. Levantou-se do banco, ficou em pé frente a frente ao
menino, escancarou a boca e devorou o sonho de Danf. Uma cintilante luz fugia
do coração do garoto até a boca do devorador. A luz absorvida com a boca seguia
até os olhos do ladrão em um brilho esplendor. O sonho do menino fora embora. O
ladrão fechou a boca, satisfeito, e então partiu desaparecendo com o vento da
manhã.
O menino adormeceu.
O menino adormeceu ali no banco.
Um pássaro pousou em cima dele e cantou iniciando uma
melodia que todos os outros pássaros tornaram também a cantar. Em poucos
minutos o menino acordou. O seu olhar estava agora triste e sem vida. O seu
sonho fora roubado e ele não seria mais artista. Agora era impossível realizar
o seu sonho, pois este passou a pertencer ao ladrão. Mas... O menino voltou a
sonhar. Ele sonhava agora em recuperar o seu antigo sonho. Ele não conseguia
lembrar-se exatamente qual, mas sonhava, sonhava em tê-lo de volta. O mesmo
sonho que sonhara antes. E isso, de qualquer forma, também é um sonho.
Os pássaros foram embora. Naquela manhã começou a chover e
quando a ventania de repente aumentou, o ladrão reapareceu a frente do menino.
Ele teria de devorar novamente o sonho de sua vitima. Era o seu dever, mas ele
não gostara nem um pouco de Danf voltar a sonhar. Dessa vez não sentara ao lado
do menino e suas vestes estavam molhadas por conta do tempo. A chuva atacava
fortemente o parque e ele apressou-se com a sua segunda refeição do dia. O
ladrão não gostava de chuva e queria sair o mais rápido possível de lá.
- Porque voltara a sonhar? – Perguntou o ladrão, surpreso.
- Não sei – respondeu o menino de imediato. – Apenas sonho,
eu sonho em ter o meu sonho de volta.
Isso jamais acontecera antes. O ladrão, ainda surpreso,
encarou o menino com certo desprezo. Ao olhar para o ladrão ninguém perceberia
isso, a sua face continha uma expressão indiferente e indescritível que só os
fantasmas possuíam.
- Não me importa, eu devorarei o teu sonho outra vez, agora
será impossível você voltar a sonhar – disse o ladrão aproximando-se mais um
pouco do menino, escancarou a sua boca e uma luz fugia de dentro do garoto. O
ladrão devorou o sonho de recuperar o sonho de Danf. Virou-se, andou lentamente
em direção a fonte e logo desapareceu em uma ventania. O menino ficou sozinho
de novo, e um pássaro, o mesmo que cantara primeiro na outra vez, pousou no
chão molhado e começou a cantar. Dessa vez o menino não havia adormecido e
presenciou o canto e a melodia harmoniosa do pássaro. Um canto destinado
somente a ele, um canto bonito e revelador. A música do pássaro o fazia sonhar
outra vez, a melodia quebrava a impossibilidade de sonhar mais e mais, e então,
de cabeça erguida para o céu, o menino voltou a sonhar! Sonhava em recuperar o
sonho de recuperar o sonho, e isso, de qualquer forma, também é um sonho! E o
ladrão, depois de algumas horas, reapareceu totalmente insatisfeito e
aborrecido. O ladrão estava cansado do menino, suspirou e não se sentou, escancarou
a boca e uma luz fugiu dele. O ladrão devolveu o sonho do menino de desejar ser
um artista e nada falou. A sua expressão dizia tudo. A sua expressão
indiferente mudara-se para uma raivosa e monstruosa, a qual, talvez, mostre
quem realmente ele era. O menino o surpreendeu e ninguém era capaz de tanto
sonhar... Sonhar tão verdadeiramente. E o devorador rendeu-se. O menino amava o
seu sonho, e então, ao crescer, o realizou. Danf tornou-se um exímio artista e
ao morrer uma famosa galeria de arte recebeu o seu nome como titulo, enquanto o
desesperado e pálido ladrão de sonhos contentavam-se com muitos e muitos sonhos
de outras pessoas, inclusive, até mesmo o tal sonho de querer ser escritor.