sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma conversa com a solidão. Uma conversa com a morte.

Havia um menino que era muito carente e precisava de amigos. Ele chamava-se Nako, tinha oito anos de idade e não sentia-se triste por isso. Até que um dia a senhora Tristeza o visitou enquanto ele estava no jardim de sua casa, dizendo:
- Não procure a senhora Felicidade, com ela você nada irá aprender. Prefira a mim e comigo irei trazer o Sofrimento, pois vos digo que é entre nós que aprenderá as lições da vida. Quer que eu seja tua melhor amiga?
O menino sentado na grama esverdeada levantou-se e balançou a cabeça, rejeitando a presença da Tristeza.
Depois de Nako andar um pouco, o velhote Tédio chegou lentamente a ele.
- Ora, como vai? Posso deixar o seu dia muito chato. Você percebe como sou malvado? Sim, sou mesmo, gosto de deixar as outras almas grande parte do tempo entediadas com a minha companhia. Aliás, quer que eu seja teu melhor amigo?
O menino direcionou seu olhar indiferente a outro lado e ignorou o Tédio escolhendo brincar sozinho. E então, de vestes rasgadas, velhas e sem vida, a senhorita Solidão apareceu a ele, sussurrando:
- Vejo que está só. Mas como sou inevitável certas vezes, você agora tem a mim. Já que sou bastante amigável, posso ser sua melhor amiga, o que acha?
Nako, solitário como estava, não a rejeitou e ficou com a amizade oferecida. E a solidão vendo que o menino estava prestes a entristecer-se por ainda sentir-se sozinho, falou:
- Não chore só porque não tem tantos amigos. As pessoas mentem, manipulam, te aborrecem e são poucas as que trazem consigo a querida Sinceridade e o jovem Amor. Ninguém te enganará ou lhes machucará agora. Porém, terá de se acostumar comigo. Acostumar-se com a Solidão.
E ditas essas palavras da amiga Solidão, vinham andando até o encontro de Nako a senhora Felicidade, o jovem Amor e a querida Sinceridade e juntos brincaram no jardim.
Anos passaram-se... E sobre Nako, quase me esqueço de lhes contar que o próprio era órfão e vivia em um orfanato sem amigos, pois nenhuma pessoa sequer o amava. Mas um dia, isso mudou. Nako foi adotado por uma linda família e ele despediu-se finalmente da Solidão, orgulhoso e feliz por agora ter um pai e uma mãe.
Sabe, com honestidade a quem ler essa história, menciono a noticia de que Nako nunca fora tão alegre depois desse dia. Assim, viveu toda sua vida de forma simples, modesta e humilde. Até envelhecer e a esperada querida Morte surgir e o levar embora.

Tudo estava tão escuro, tão vazio, tão sem vida... Nada os olhos enxergavam, nada a pele sentia como o frio ou o calor, nada a mente lembrava, nem nada o coração gritava. Não havia barulho, também não havia silêncio, apenas as suas pernas sem se mover sobre um solo invisível e o corpo sem alguma ação ou impulso. Até fechar lentamente as pálpebras, e quando achava que iria cair em um sono profundo, sentiu uma mão fria e lívida tocar sem ombro lhes causando um tremor na alma. Voltou a ter forças e distinguiu a sua frente um alguém, porém não um alguém qualquer. Ele apresentou-se como a morte, pois foi seu olhar quem tinha dito por ele.
     - Não tenha medo, porque se deve temer ao que é mal e eu não sou mal – a morte murmurou.
     Nako temia a ele, mas logo passou a confiá-lo misteriosamente de uma forma natural.
     - Perdi o medo e em troca ganhei a tristeza. Estou morto junto com a minha esperança.
     - Ora, não entristeça. Eu, a morte, lhes dou de presente um descanso que você irá gostar, sabe por quê? Porque ele é longo, tão longo que jamais irá acabar.
     - Poxa, então com qual razão eu poderia ficar feliz com isso? Nem tenho mais vida! Ela foi embora e levou consigo tudo que sou e tudo que fui. Serei esquecido com o tempo. Minha família não me verá mais e aqueles quem eu amo eu também não os verei outra vez –  Disse Nako deixando-se ser dominado por um ódio inevitável – E a culpa é toda sua! Se a morte ao menos não existisse...
     Enfim houve uma pequena pausa.
     - Os humanos iriam piorar... – a morte continuou.
     Nako espantou-se.
     - Piorar? - perguntou surpreendido, pois para ele a morte era horrível, destruidora, totalmente má.
     - Exatamente - a morte respondeu com um tom suave. – Sem mim os humanos se tornariam podres. Digo, mais podres do que costumam ser.
     - Não, eu sinceramente não entendo... – Nako falou.
      Ouvindo isso, a morte deu de ombros e começou a andar pelo vazio.
     - Hm, deixe-me explicar... – ela suspirou. - Caso um dia ninguém nunca mais morrer nesse mundo, ninguém mais terá amor, sonhos ou maravilhas... Comigo é diferente, se aprende quenada é para sempre! Devemos aproveitar tudo ao máximo, pois um dia iremos terminar acabar, desaparecer, ou para ser mais exato, simplesmente morrer... E lhe digo, é melhor uma vida curta para valorizar cada dia que temos do que uma longa e eterna de que dias mágicos não seriam importantes.
     E então escutando aquelas palavras, Nako ficou pasmo e mudou de idéia naquele momento após conversar com a própria morte. Afinal, ele não sabia que a morte poderia ter um lado bom na vida... Ah, mas que vida? Lembrei-me, fiquei tão mergulhado no texto que esqueci que meu protagonista estava morto, entretanto, ouso em dizer que mesmo morto ele se sente vivo. Aliás, agora se deitou para o seu descanso satisfeito. De fato, suas dúvidas que alimentavam sua angustia foram todas respondidas. Todas respondidas por uma pessoa inesperada, é claro.